terça-feira, 25 de maio de 2010

O objetivo da CIA seria guerra civil em 1964?

Acabo de receber por e-mail um artigo de João Vicente Goulart afirmando que o objetivo estratégico dos EUA ao promoverem o golpe militar de 1964 era gerar uma guerra civil. A CIA previa a resistência armada dos apoiadores do presidênte João Goulart, que desenvadeiaria uma guerra que destruiria o Brasil. É a primeira vez que leio essa avaliação, e tenho que concordar que responde a uma questão que para mim não é solucionada por nenhuma outra leitura - Qual o objetivo do golpe?

Sim, o golpe de 1964 foi feito sob alegações absurdas, que não podiam ser realmente levadas a sério, muito menos pela CIA. Se os serviços de inteligência dos países da OTAN, acostumados com revoluções, incentivaram generais e políticos brasileiros a acreditar na possibilidade mesmo que remota de uma revolução socialista no Brasil dos anos 60, deviam ter um objetivo. Esse objetivo não podia ser conter uma revolução que sabiam que nem se esboçava.

Na verdade a maioria dos protagonistas do golpe também não acreditavam nessa revolução, pois eles liam jornais. Sabiam, por exemplo, que Brizola era um grande fazendeiro, e não um comunista. Tinham lido também nos jornais que quando Brizola visitou Belo Horizonte, então já uma grande cidade, foi recebido por uma procissão, de centenas ou milhares de beatas que foram rezar para lhe tirar o diabo comunista do corpo! Sim, certamente nem todas nessa procissão eram assim tão crentes, mas deve-se notar que esse episódio revela que a Revolução estava distante.

Um estudo da esquerda brasileira dessa época revela deficiências (não maiores que as de hoje, embora diferentes) que também impediam por completo a Revolução. Basta, por exemplo, saber que só há 20 anos o Partido Comunista - PCB - tinha criado a Editora Vitória e começara a fazer circular no Brasil textos básicos como o Manifesto Comunista em uma escala apreciável. Deve-se lembrar que não existia Internet, nem xerox. Outras obras importantes demoraram muito mais a aparecer. O nível de estudos, portanto, dificilmente poderia ser o necessário, e isso fica muito claro em depoimentos autocríticos, como de Gabeira, ou na adoção desesperada de táticas cujo fracasso era previsto e explicado em obras de 60 anos antes.

É óbvio que os serviços de inteligência e diversos políticos mais bem informados conheciam essas deficiências da esquerda e as características da sociedade. O que nossos políticos e generais queriam nós sabemos, pois foi o que tentaram fazer, chamavam inicialmente de revolução, e era uma contra-revolução ao mesmo tempo, capitalista e conservadora. Logo, as características ultramontanas foram derrotadas, pois o aliádo necessário, indispensável mesmo com rusgas, os EUA, tinham outras intenções no campo cultural. Claro, como capitalistas, queriam também vantagens pessoais, mas isso não é relevante na análise.

Mas o que queriam as agências de inteligência dos EUA e outros países capitalistas? A explicação de João Vicente me parece correta. Nada seria melhor para os capitalistas desses países do que uma guerra civil que destruísse o país todo, talvez até dividindo-o.

2 comentários:

Revistacidadesol disse...

Oi, Alex. Eu já acho que o objetivo traçado era retirar a figura de Jango do poder o mais rápido possível, objetivo plenamente conseguido, tal como agora com Zelaya. Eu já vi um comunicado na CIA (acho q saiu na Folha) que dizia: "president Jango must be removed. And removed in a hurry".

Eles tão com tanto know how que agora Zelaya foi deposto e expulso do País sem nem a chance que Jango teve de resistir com o terceiro exército.

Acho que uma boa lição pode-se tirar desse episódio da deposição de Jango: na América Latina, as elites combatem tão intensamente a social-democracia verdadeira, de base operária e sincera quanto ao seu reformismo (reforma agrária, lei de remessa de lucros) quanto o comunismo.

Abs do Lúcio Jr

Insurgente disse...

o objetivo do golpe parece ter sido o estabelecimento das bases para para o neoliberalismo no Brasil...