quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Permita-nos discordar

O blog do PCB de Campinas publicou no dia 28 de Janeiro de 2009 um texto do líder da revolução norte coreana, Kim il Sung, sobre a queda da URSS. As conclusões de Kim il Sung não são diferentes das que podemos encontrar em João Amazonas e em diversos outros pensadores comunistas, inclusive russos, como o “camarada” citado pelo dirigente coreano – teríamos sido derrotados na luta ideológica, e por displicência.

Respondemos a essa interessante análise aqui por que o blog do PCB de Campinas não aceita comentários:

Ora, não é possível negar que depois da morte de Stálin, em 1953, o PCUS deixou a desejar no campo na luta ideológica. Também não é possível negar que Krushov iniciou na URSS a contra-revolução que acabaria restaurando o capitalismo. Mas exatamente por isso somos obrigados a discordar do saudoso João Amazonas, de Kim il Sung e de quantos mais se deixem enganar por essa análise simplista.

O que existe de simplista nessa análise é o mesmo que torna simplista a análise segundo a qual a URSS teria caído por razões econômicas: ambas essas interpretações, uma culturalista e outra economicista deixam de lado a questão do Estado! Aliás, o movimento comunista, durante todo o século XX, enveredou no erro que Lênin já apontava em 1917 n’O Estado e a Revolução, “esquecendo-se” dos ensinamentos marxistas sobre a questão do Estado.

Ora, em 1953 um brasileiro reconhecidamente comprometido com a verdade, Graciliano Ramos, visitou a URSS, deixando-nos a respeito o livro Viagem. Nessa obra uma coisa fica bem clara – o grande apoio popular ao socialismo! Quinze anos depois, em 1968, quando a URSS invadiu a Thecoeslováquia, para justificar a agressão os contra-revolucionários no poder tiveram que fraudar notícias e documentos para convencer seu próprio povo e os soldados de que a ação militar era necessária para salvar o socialismo. De fato, para ficarem no poder os contra-revolucionários tinham que se esconder sob a bandeira vermelha. O sentimento socialista do povo era tamanho que atrapalhava a contra-revolução, obrigando, por exemplo, Brejnev, substituto de Krushov, a se fingir de stalinista.

Portanto ainda não havia um quadro de derrota ideológica do socialismo na URSS, mas a contra-revolução já estava no poder!

Pelo aspecto econômico o quadro é muito semelhante. Somente mais de uma década depois da tomada do poder pelos contra-revolucionários, que podemos datar do Golpe de Moscou, de 1959, a economia soviética começou a crescer mais lentamente. E somente em 1989, um ano antes da queda oficial (que na verdade foi só uma troca de bandeiras e o escancaramento da volta ao capitalismo), os índices de crescimento soviéticos chegaram a zero.

Conclui-se que tanto a explicação culturalista quanto a economicista colocam os efeitos antes da causa! O poder do proletariado soviético já tinha caído, antes que a ideologia liberal tomasse espaço e que a economia sentisse qualquer efeito da contra-revolução.

O que muito deve nos admirar é que por um século os comunistas tenham desprezado a tal ponto a questão do Estado, pois essas análises simplesmente não levam em conta os Soviets. A Constituinte de 1936, que apesar de manter o nome Soviets os reduziu a parlamentos burgueses, é esquecida. Noventa e nove em cada cem comunistas nem sabem que a URSS viveu um processo constituinte em 1936, e os que sabem normalmente desprezam o fato. É como se a Revolução Soviética não precisasse de Soviets!!??

Tal “esquecimento”, mais um dos diversos que atingem o marxismo e todas as teorias revolucionárias, explica-se tanto pela falta de estudos, que resulta em simplificações economicistas do marxismo (as superestruturas não teriam importância nenhuma, pois seriam determinadas pela infraestrutura), quanto pelo oportunismo e o carreirismo, sempre adversos à espinhosa questão do Estado.