segunda-feira, 16 de março de 2009

Rússia: a possibilidade da Segunda Revolução Soviética

58 % dos russos defendem uma economia planejada em oposição à economia de mercado. Era de se esperar esse quadro, pois o estudo de qualquer sociedade atual, ou seja, o estudo da história do século XX, demonstra que a economia de mercado está superada, pois já funciona muito mal, mesmo para seus próprios critérios tortos, cujo principal exemplo são os índices de crescimento. Como o povo russo experimentou nas décadas de 30, 40 e 50 socializar (mesmo que somente a nível macro econômico) a economia, só pode estar apavorado com as mazelas de uma economia de mercado – insegurança constante; desemprego; miséria crescente; mendigos; crianças de rua; criminalidade crescente; corrupção generalizada.

Mesmo em comparação com a economia planificada sabotada e parasitada das décadas de 60, 70 e 80, quando foram dados grandes passos em direção ao capitalismo (maiores até que os dados por Yeltsin a partir de 1990), a economia de mercado é um pesadelo. Eles tinham filas enormes (parte da sabotagem governamental para abrir caminho ao capitalismo), mas isso significa que consumiam, pois se não, não estariam nas filas. E claro, abriu-se a cortina do mundo ocidental, e ficou claro que toda ostentação era um canto de sereia. A crise econômica mundial também não deixará os russos mais felizes com o capitalismo!

O exemplo chinês é também influente sobre os russos, assim como a experiência russa é hoje influente sobre os chineses. Ambos os exemplos são de fato anti-capitalistas, uma vez que são vizinhos e se conhecem melhor do que a imprensa ocidental nos deixa conhecer a ambos. O exemplo russo para os chineses ensina a não rumar para o capitalismo, que no caso chinês seria um inferno na Terra. O exemplo chinês, ao contrário do que se pensa por aqui, é de que convém planejar sim a economia, e de que é conveniente liberal algumas atividades de mercado, contanto que não sejam em setores estratégicos. Na verdade, esses dois países vizinhos estão mergulhados em uma grande luta interna entre o socialismo e o capitalismo, embora oficialmente um seja socialista e o outro capitalista.

Os defensores da propriedade privada e da economia de mercado estão reduzidos a 29% da população, metade dos seus opositores! Assim como a transição para o socialismo é um período longo e enfrenta obstáculos, a transição da Rússia de volta ao domínio imperial está enfrentando problemas. Depois da crise econômica russa de 1998, o governo Putin já foi obrigado a de fato reestatizar os 14 setores considerados mais estratégicos da economia, o que torna o capitalismo russo bem incompleto. Essa medida teve grande sucesso, pois conseguiu que a economia da Rússia, pela primeira vez desde o fim da URSS, crescesse. É fora de dúvidas que a opinião pública russa está sendo muito influenciada por essa experiência.

Por outro lado, pelo aspecto político, continua a reinar entre os russos uma tendência claramente autoritária. Em 1996, 43% dos russos defendiam o regime “soviético” terminado em 1990, e 32% defendiam uma democracia de tipo ocidental, ou seja, a porcaria que temos por aqui no Brasil. Hoje, esses números caíram para 24% e 15% respectivamente. O problema o que cresceu – a defesa do regime atual, que de 6% pularam para 36% e agora estão em 25%. Ora, o “modelo atual” é um presidencialismo autoritário e centralista.

Apesar da grande esperança na volta do poder dos Soviets, extinto na URSS desde 1936, que atinge 38% dos russos, o apoio à atual forma de governo é muito grande, e remete à cultura russa. Trata-se de um povo que viveu 300 anos sob um regime absolutista, o tzarismo, depois teve uma curta experiência de 20 anos de poder realmente soviético, entrou em uma ditadura comunista entre 1936 e 1959, que cedeu espaço a uma ditadura anti-comunista entre 1959 e 1990, para entrar no “modelo atual”, que também é uma ditadura descarada. Essa tradição autoritária foi um obstáculo à primeira revolução soviética e pode vir a dar problemas à segunda, que apesar de toda a propaganda capitalista se aproxima. Basta dizer que as forças armadas voltaram a usar a bandeira vermelha com a foice e o martelo. A música do hino voltou a ser a soviética, e a letra soviética é cantada pelas multidões de jovens em shows de rock. (Exatamente, a segunda revolução soviética acontecerá ao som do rock in roll!!?)

Hino Soviético: