sábado, 29 de agosto de 2009

A queda dos Soviets e o fim da URSS


Todo livro didático informa que em 1917, na Rússia, em Fevereiro uma revolução colocou fim aos 300 anos da monarquia dos Romanov, instaurando uma República, e em Outubro uma segunda revolução, orientada por um dos dois Partidos Operários Social Democratas da Rússia, o chamado Bolchevique, entregou todo o poder aos Soviets. Daí o nome Revolução Soviética. Em alguns livros é possível saber que em russo soviet é conselho, e que essa forma específica de Conselho, originalmente reunindo os operários de todas as empresas de uma cidade, e posteriormente incorporando estudantes, camponeses, soldados e marinheiros (que acabariam formando seus próprios Conselhos), surgiu em 1905, em uma pequena cidade russa quase equidistante de Petrogrado e Moscou (Ivanovo-Vosnesensk). Mais tardar em 1907, esses primeiros Soviets foram fechados pela monarquia, e voltaram a se reunir logo que esta caiu em Fevereiro de 1917. Já em Abril, Lênin, principal teórico bolchevique, defendeu que o poder dos Soviets seria um poder do povo trabalhador, e a mais ampla e eficiente democracia que a Rússia já tivera, portanto equivalente ao que Marx chamou de Ditadura do Proletariado, e também o equivalente russo da Comuna de Paris, embora o funcionamento desses dois espaços, um Soviet russo e a Comuna parisiense de 1971, não fosse exatamente igual. Essa ideia, adotada pelo Partido Bolchevique, atraiu para essa organização forças suficientes para o levante de Outubro.


Mas depois disso, o que aconteceu com os Soviets? Existiram até 1989? Foram dominados ou substituídos pelo Partido Comunista? Qual a relação entre os Soviets e as lutas políticas, as reformas econômicas e a ditadura?

Nos primeiros dez anos de poder soviético, 12,5 milhões de trabalhadores chegaram a participar como deputados aos Soviets. De 1924 a 1934, o número de deputados multiplicou-se por doze. A participação era efetiva e vigilante, funcionando a deposição de deputados. Nos Soviets urbanos, entre 1931 a 1934, só na Rússia, foram derrubados 18% dos deputados. A participação popular, desde a revolução, cresceu espetacularmente. No biênio 24-25 o número de eleitores foi de 37 milhões, sendo que metade dos mesmos participou das reuniões preparatórias. Passados dez anos, no biênio 34-35, o número de eleitores já era de 77,4 milhões, sendo que 85% participaram das reuniões preparatórias, que eram debates anteriores à eleição. A relação do Partido com os Soviets se guiava pela proposta por Lênin - “O Partido deve levar à prática suas decisões pelo conduto dos soviets e nos marcos da Constituição soviética. O partido se esforça para dirigir a atividade dos soviets e não por suplantá-los.” O desvio dessa política em 1929 foi fatal!

Os Soviets só existiram até 1936, quando uma Constituinte os liquidou na forma como eram e os substituiu por parlamentos eleitos com a forma dos parlamentos burgueses, embora mantendo o mesmo nome. Traduzindo para o português do Brasil, criaram câmaras de vereadores, assembléias legislativas e uma câmara de deputados, mas com os nomes de soviet municipal, regionais e nacionais e de toda a União. A mudança da forma, nesse caso, muda todo o conteúdo, pois não havia mais representantes de cada empresa, cada escola, cada quartel, cada navio, cada fazenda, nem revogabilidade dos mandatos, mas políticos eleitos em grandes eleições diretas, portanto mercantilizadas.

Essa Constituição de 1936, embora tenha sido jogada às costas de Stálin e de seu grupo, foi uma derrota dessa facção bolchevique e de todos os comunistas. Para quem observa de longe, parece uma derrota previsível. Ainda em 1934, enquanto nos soviets urbanos a proporção de comunistas atingiu a média 45,3% em toda a URSS, nos soviets rurais, representantes da maioria absoluta do povo da URSS, chegou somente a 18,9%! Sete anos antes dessa Constituinte, os comunistas tinham iniciado a socialização das terras, atropelando a aliança com os camponeses e as decisões do último congresso dos soviets. Pagaram esse preço porque previam uma guerra para breve, e se deram outro passo tão perigoso para um Estado quanto convocar uma Constituinte, foi pelo mesmo motivo – a guerra prevista com a Alemanha nazista – e a necessidade de reunificar o povo soviético.

Ao invés de renovar e melhorar, a Constituinte de 1936 colocou fim ao período propriamente soviético. Os comunistas, cientes da derrota que sofreram, apelaram para ditadura. Entre os fuzilados, que foram sobretudo membros do alto escalão do Partido e do Estado, estavam todos os principais responsáveis pela Constituição de 1936, inclusive o favorito para o posto de primeiro ministro em caso de acontecerem as eleições diretas previstas pela nova carta – Bukharin!

Essa ditadura não teve campos de concentração, nem fuzilamentos sem julgamento, nem atingiu milhões, nem muitos milhares, ao contrário do que afirmam a maioria dos livros didáticos. Mas foi sim uma ditadura, pois o principal canal de participação popular, os soviets, estavam extintos e a Constituinte de 1936 foi engavetada. Também o Partido, o outro grande canal de participação, deixou de reunir seus fóruns, provando que a derrota de 1936 fora de grande envergadura, tendo os bolcheviques perdido o controle do seu próprio Partido.

Se não foi o inferno que pinta a propaganda capitalista, também não foi vitoriosa essa ditadura cujo porta-voz era Stálin. Sob ela a URSS riscou a Alemanha nazista do mapa, tornou-se uma grande potência econômica e científica. Teve progressos sociais imensos. Mas a ditadura não conseguiu manter o poder nas mãos do povo trabalhador! Em 1953, quando morreu Stálin, os contra-revolucionários já tinham o controle quase completo do Estado e do Partido. Houve uma resistência de velhos bolcheviques até 1959, quando foram presos e expulsos do Comitê Central pelo Golpe de Moscou.

Ou seja, à ditadura comunista seguiu-se uma ditadura contra-revolucionária. Foi essa ditadura contra-revolucionária que criou o Muro de Berlin, que invadiu a Hungria, a Theco-Eslováquia e o Afeganistão. Essa ditadura, sim, matava sem julgamento, e internava opositores nos hospícios pois não tinha como julga-los.

Pode-se afirmar que se tratava da contra-revolução quando se analisa diversas de suas características. Comprometeu o planejamento econômico com diversas reformas burocráticas, dispensáveis e até absurdas, como dividir a URSS em 50 regiões com autonomia de planejamento. Entrou na corrida armanentista provocada pelos capitalistas, o que dentro da URSS significava verbas secretas, portanto corrupção. Aumentou o poder dos administradores constantemente, reduzindo tanto o controle dos trabalhadores quanto da própria administração central, também estimulando a corrupção. Privatizou as máquinas e tratores do campo. Esses fatores somados a outras reformas econômicas de cunho liberal fizeram com que a economia soviética, até a década de 1950 a mais dinâmica do mundo, passasse a ter índices de crescimento cada ano menores. Embora ainda se afirmando comunistas, as declarações dos líderes “soviéticos” de então manifestam enorme ignorância a respeito do marxismo.

Em 1989, o que aconteceu não foi uma grande ruptura na história russa, mas a conclusão lógica dos trinta anos precedentes. Oficialmente caída, a União Soviética se torna a grande escola para o socialismo científico, como não poderia ser de pé, quando a derrota ainda não era aceita pela grande maioria dos que a estudavam. Mas as versões dominantes entre os marxistas para explicar essa derrota não têm levado em conta os Soviets.

A mais difundida versão sobre a história soviética a reduz à luta entre as lideranças bolcheviques, com destaque para a dualidade Stálin e Trotski, e com um pouco menos fama (embora tenha sido uma luta mais difícil, demorada e fatal), entre Stálin e Bukharin. A história da Revolução Soviética é assim reduzida à ação dos figurões, como se fosse escrita não por marxistas, mas pelos historiadores tradicionais ou por positivistas, ainda apegados aos governantes. É como se não tivesse existido o poder dos Soviets, só a ditadura. Essa é a versão mais difundida pelos meios capitalistas, pois ideal para amedrontar os ignorantes.

Como nem todo mundo é parvo ao ponto de acreditar em maniqueísmos, existe uma outra versão compartilhada por “marxistas” e capitalistas. Dizem os capitalistas que a URSS caiu porque economicamente era ineficiente, sendo prova portanto da superioridade da economia de mercado sobre a economia planejada. Os “marxistas” que aceitam essa versão explicam que o URSS teve sucesso durante um período de crescimento extensivo, ou seja, em quantidade, aproveitando os exuberantes recursos naturais herdados do império Romanov, e crescimentos da indústria pesada. Não teria conseguido, porém, avançar para uma fase de crescimento intensivo, ou seja, aproveitando melhor os mesmos recursos, e de crescimento da indústria leve. Em outras palavras essa versão dita marxista não é mais que um detalhamento da versão capitalista. Nota-se a despreocupação com os Soviets, mesmo entre os autores que se atentam para o caráter nada revolucionário da organização fordista da indústria soviética.

Essa versão economicista é desmentida pelos estudos da economia da URSS em comparação com sua história política. Até a década de 1950, o crescimento dessa economia foi o maior do mundo, não superado sequer pelos índices recentes de crescimento chinês. Vimos que no final da década de 1950 a contra-revolução inicia reformas econômicas de destruição do socialismo. Ora, somente depois dessas reformas os índices de crescimento da URSS começaram a declinar, mesmo assim demorando para cair abaixo dos índices de crescimento normais das economias de mercado, o que só aconteceu nos anos 1980, chegando a zero em 1989. Sendo assim, o que fracassou na economia da URSS não foi o planejamento, nem a socialização, mas sim as reformas capitalistas, tanto que na década de 1990, na continuidade dessas reformas capitalistas, a economia russa chegou a cair até a metade do que fora! O que é necessário explicar é a origem dessas reformas, ou seja, a origem da contra-revolução, e não tentar explicar a contra-revolução pela decadência econômica que ela mesma gerou. E claro, essa versão não leva em conta que a contra-revolução se iniciou exatamente em um período de enorme sucesso econômico, assim como em outros casos, como a naturalmente pobre ilha de Cuba, o socialismo é capaz de avançar sobre a pobreza!

Por fim, exclusivamente marxista, existe uma explicação culturalista. O socialismo teria sido derrotado na URSS porque os comunistas deixaram de lado a luta de ideias para se dedicarem à administração dos negócios públicos. Existe um pouco de verdade nesse quadro, uma vez que realmente caíram sobre os ombros dos comunistas uma infinidade de tarefas cotidianas, que se eram indispensáveis, por outro lado não tinham nada de ação política e menos ainda de luta de ideias. Além disso, a formação política e teórica dos trabalhadores foi prejudicada por dois erros bem naturais. Primeiro, porque acreditavam os soviéticos que o poder dos operários e camponeses era inclusive ocupar os postos de administração e do Estado com pessoas oriundas dos meios operários e camponeses. Embora pareça óbvio, isso significou a constante extração das pessoas mais politizadas e preparadas dos meios operários e camponeses, ou seja, o verdadeiro empobrecimento políticos de ambos! Segundo, como até hoje dizemos de brincadeira que os burgueses tem que ser postos a trabalhar, os soviéticos colocaram em prática, criando a figura dos ZEKs, que podiam ser criminosos ou contra-revolucionários. Ou seja, os operários foram privados constantemente de suas lideranças mais preparadas e receberam em troca os ZEKs! Porém, apesar desses e diversos outros problemas, os contra-revolucionários demoraram trinta anos no poder para poderem deixar de se dizerem marxistas. Ainda em 1968, para abafar a Primavera de Praga, tiveram que forjar documentos para convencer o povo da URSS de que eram os operários thecos que imploravam pela intervenção militar. Ainda em 1989, a opinião pública da URSS não era majoritariamente contrária ao socialismo, e hoje os capitalistas são uma parcela menor ainda da população. Essa versão culturalista também não leva em conta os Soviets, como se sua extinção não fosse o fim de uma escola de poder para o povo russo.

Devemos concluir que o debate sobre o Estado tem sido sistematicamente abafado e abandonado, embora tanto a vitória quanto a derrota da URSS, a nosso ver, tenham se decidido nesse terreno. Não só na URSS, mas em todo canto e época – na Inglaterra o auge do movimento operário foi o Cartismo, um movimento por reformas políticas; Na França, foi a Comuna de Paris, o primeiro Estado dos trabalhadores, a governo mais democrático que já teve Paris; Na China a vitória da Revolução esteve ligada às Comunas Populares e a um exército democrático, assim como no Vietnã, e agora que não se ouve falar mais das Comunas, também não se fala mais de socialismo; Em Cuba é óbvio que só a participação popular sustenta o socialismo, e as revoluções que se iniciam nos países bolivarianos se fortalecem com plebiscitos revogatórios e constituições que ampliam o poder popular.

Um bibliografia sucinta:

LUSTOSA, Rogério. Soviets: um milhão de vezes mais democráticos. Princípios.
BAMBIRRA, Vania. A teoria marxista da transição e a prática socialista.
STÁLIN. Problemas econômicos do socialismo na URSS.
RAMOS, Graciliano. Viagens: Theco-Eslováquia - URSS.
REED, John. Os dez dias que abalaram o mundo.
LÊNIN. Esquerdismo, doença infantil do comunismo.
FERNANDES, Luís. URSS: Ascensão e queda.
BRANCO, Frederico. Zhukov (1896-1974).
BETTELHEM, Charles. Luta de Classes na URSS.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Rússia: a possibilidade da Segunda Revolução Soviética

58 % dos russos defendem uma economia planejada em oposição à economia de mercado. Era de se esperar esse quadro, pois o estudo de qualquer sociedade atual, ou seja, o estudo da história do século XX, demonstra que a economia de mercado está superada, pois já funciona muito mal, mesmo para seus próprios critérios tortos, cujo principal exemplo são os índices de crescimento. Como o povo russo experimentou nas décadas de 30, 40 e 50 socializar (mesmo que somente a nível macro econômico) a economia, só pode estar apavorado com as mazelas de uma economia de mercado – insegurança constante; desemprego; miséria crescente; mendigos; crianças de rua; criminalidade crescente; corrupção generalizada.

Mesmo em comparação com a economia planificada sabotada e parasitada das décadas de 60, 70 e 80, quando foram dados grandes passos em direção ao capitalismo (maiores até que os dados por Yeltsin a partir de 1990), a economia de mercado é um pesadelo. Eles tinham filas enormes (parte da sabotagem governamental para abrir caminho ao capitalismo), mas isso significa que consumiam, pois se não, não estariam nas filas. E claro, abriu-se a cortina do mundo ocidental, e ficou claro que toda ostentação era um canto de sereia. A crise econômica mundial também não deixará os russos mais felizes com o capitalismo!

O exemplo chinês é também influente sobre os russos, assim como a experiência russa é hoje influente sobre os chineses. Ambos os exemplos são de fato anti-capitalistas, uma vez que são vizinhos e se conhecem melhor do que a imprensa ocidental nos deixa conhecer a ambos. O exemplo russo para os chineses ensina a não rumar para o capitalismo, que no caso chinês seria um inferno na Terra. O exemplo chinês, ao contrário do que se pensa por aqui, é de que convém planejar sim a economia, e de que é conveniente liberal algumas atividades de mercado, contanto que não sejam em setores estratégicos. Na verdade, esses dois países vizinhos estão mergulhados em uma grande luta interna entre o socialismo e o capitalismo, embora oficialmente um seja socialista e o outro capitalista.

Os defensores da propriedade privada e da economia de mercado estão reduzidos a 29% da população, metade dos seus opositores! Assim como a transição para o socialismo é um período longo e enfrenta obstáculos, a transição da Rússia de volta ao domínio imperial está enfrentando problemas. Depois da crise econômica russa de 1998, o governo Putin já foi obrigado a de fato reestatizar os 14 setores considerados mais estratégicos da economia, o que torna o capitalismo russo bem incompleto. Essa medida teve grande sucesso, pois conseguiu que a economia da Rússia, pela primeira vez desde o fim da URSS, crescesse. É fora de dúvidas que a opinião pública russa está sendo muito influenciada por essa experiência.

Por outro lado, pelo aspecto político, continua a reinar entre os russos uma tendência claramente autoritária. Em 1996, 43% dos russos defendiam o regime “soviético” terminado em 1990, e 32% defendiam uma democracia de tipo ocidental, ou seja, a porcaria que temos por aqui no Brasil. Hoje, esses números caíram para 24% e 15% respectivamente. O problema o que cresceu – a defesa do regime atual, que de 6% pularam para 36% e agora estão em 25%. Ora, o “modelo atual” é um presidencialismo autoritário e centralista.

Apesar da grande esperança na volta do poder dos Soviets, extinto na URSS desde 1936, que atinge 38% dos russos, o apoio à atual forma de governo é muito grande, e remete à cultura russa. Trata-se de um povo que viveu 300 anos sob um regime absolutista, o tzarismo, depois teve uma curta experiência de 20 anos de poder realmente soviético, entrou em uma ditadura comunista entre 1936 e 1959, que cedeu espaço a uma ditadura anti-comunista entre 1959 e 1990, para entrar no “modelo atual”, que também é uma ditadura descarada. Essa tradição autoritária foi um obstáculo à primeira revolução soviética e pode vir a dar problemas à segunda, que apesar de toda a propaganda capitalista se aproxima. Basta dizer que as forças armadas voltaram a usar a bandeira vermelha com a foice e o martelo. A música do hino voltou a ser a soviética, e a letra soviética é cantada pelas multidões de jovens em shows de rock. (Exatamente, a segunda revolução soviética acontecerá ao som do rock in roll!!?)

Hino Soviético:

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O que separa a Venezuela do socialismo ?

A ) A polêmica com os trotskistas

Afirmam os trotskistas que o socialismo é impossível em um país só, ou seja, que a Venezuela só poderá ser socialista no dia em que todo o mundo o for. Discordamos por razões teóricas e práticas.

Do ponto de vista teórico, devemos concordar em que a sociedade completamente sem classes e sem Estado, ou seja, livre, só poderá existir quando já não houver nenhum Estado no planeta. Isso é óbvio, pois havendo um Estado nas vizinhanças nenhuma sociedade pode abrir mão de também ter um Estado, sob pena de ser militarmente destroçada. Mas a esse estágio, nós marxistas chamamos de sociedade comunista avançada, algo que ainda não podemos alcançar com a atual tecnologia, nem a partir das atuais relações sociais.

O que chamamos de socialismo é outra coisa! N'O Estado e a Revolução, escrito em 1917, Lênin diferencia bem uma coisa da outra, pois era necessário explicar ao povo que a revolução que propunham os bolcheviques não conseguiria extinguir as classes e o Estado, a não ser depois de toda uma época de transição. Esse período de transição precisa incluir a queda do capitalismo no resto do mundo. O que almejavam praticamente os bolcheviques era o poder de uma classe, o proletariado, em aliança com outra, o campesinato, contra o capital e os restos da nobreza. Isso significa não só que as classes não estavam extintas, mas também que os operários e camponeses aliados estariam organizados em um Estado, ou seja, de forma a vencer as classes adversárias e mantê-las vencidas!

Ora, isso já não é o capitalismo, embora não seja também o comunismo avançado. É uma primeira fase de transição, que nós marxistas passamos a denominar como socialismo, para diferenciar do comunismo e do capitalismo. É isso o que pode existir em um país só, e aqui entramos na questão prática.

As revoluções proletárias têm acontecido isoladas nesse ou naquele país, pois a velocidade de amadurecimento político dos povos é diferente. Diante dessa realidade falar de impossibilidade do socialismo em um país só é fazer o jogo do capital, desanimar os lutadores do povo, ajudar o capitalismo a superar suas crises políticas – é traição!

B ) A polêmica com os economicistas

A revolução socialista é um processo de profunda transformação social, intrinsecamente ligado à transformação da economia, a socialização dos meios de produção, conforme dizemos em termos marxistas.

Na Venezuela está em curso uma reforma agrária, mas isso ainda não é a socialização. Os operários têm tomado o controle de umas poucas industrias importantes, mas passando por cima do governo. Em resumo, o processo de socialização econômica está lento e tímido. É um fato, enquanto a economia não for socializada a Venezuela ainda não será socialista. Note-se porém, isso não significa que não esteja passando por uma Revolução, nem que essa Revolução não mereça nosso apoio.

Mas essa análise é ainda incompleta, pois se nos apegarmos a ela concluiremos que se Hugo Chavéz iniciar um amplo processo de socialização da economia a Venezuela terá se tornado socialista. Ora, apoiaríamos essa socialização, que seria favorável à construção do socialismo nesse país, mas ainda algo separando a Venezuela do socialismo.

C ) A questão do Estado

Em país nenhum do mundo o povo consegue ter poder por meio das grandes eleições diretas. A chamada “democracia liberal”, ou “ocidental”, ou com mais correção “capitalista” só faz legitimar o poder do capital, assim como o Direito Divino dos Reis legitimava o poder da nobreza. Nem povos altamente educados, como o francês, o italiano, o sueco e o suíço, conseguem exercer poder por meio das eleições capitalistas, movidas a dinheiro e publicidade, além de altamente controladas pelos meios de comunicação capitalistas.

Ora, sem o poder da maioria do povo não existe socialismo! Com o poder nas mãos um povo pode socializar a economia ou fazer as reformas econômicas e sociais que bem entender. Mas sem o poder um povo não consegue nem mesmo manter as conquistas do passado. A manter o atual Estado, o povo venezuelano está condenado a perder tudo o que vem conquistando com Hugo Chavéz.

No geral, o Estado venezuelano continua tendo um formato capitalista. Aliás, essa é uma característica das revoluções andinas do início do século XXI. Tanto na Venezuela quanto na Bolívia e no Equador, os povos estão fazendo a Revolução nas ruas, como toda Revolução, mas as legitimaram em eleições burguesas. Isso pode até se provar de alguma utilidade, ou ao menos interessante para os estudos, mas somente se for possível superar essa fase e construir o poder popular de verdade. Infelizmente, nos três casos, as Revoluções parecem agarradas ao Estado burguês, principalmente no caso venezuelano, onde o cordão umbilical é Hugo Chavéz!

Na Bolívia e no Equador, as eleições presidenciais foram mais claramente um resultado dos levantes populares, com destaque para o último país, onde o povo tem derrubado diversos governantes que elegeu, e só está permitindo Rafael Corrêa governar por que este adotou o caminho revolucionário. Note-se mais essa prova de que as eleições diretas não servem para o povo ter nenhum poder – um mesmo povo, em poucos anos, elege e depõe diversos governantes! Ora, então essas eleições significaram o que? O povo conseguiu o que queria nas urnas ou nas ruas?

Que o formato burguês de Estado não serve ao proletariado o confessam os chavistas, quando se apegam à reeleição de seu Coronel. De fato, a se manter a Constituição “democrática” liberal – o modelo político defendido para todo o mundo pelos EUA – é praticamente impossível eleger outro presidente revolucionário, menos ainda com forças para continuar a revolução! Se Hugo Chavéz não puder ser reeleito, aos revolucionários só sobrará a opção da luta armada, com todos os riscos ai envolvidos.

Tentar criar um Estado proletário com formato burguês é como se os senhores de escravos de Roma e Atenas tentassem se organizar como as tribos neolíticas, ou como se a burguesia tentasse fazer avançar a revolução industrial mantendo as instituições feudais. É vestir em um adulto a roupa de uma criança.

Até agora, poucos passos foram dados pelas revoluções de nossos vizinhos bolivarianos em direção a um Estado proletário – a revogabilidade dos mandatos é o principal, mas foi adotada de forma tímida, ocasional, quase como exceção, quando devia ser a regra. E pior, foi adotada no modelo burguês de um grande plebiscito movido a milhões de dólares. E outra coisa, não é para todos os cargos públicos, mas só para os mais visíveis. Ou seja, trata-se de uma revogabilidade limitada.

Temos esperança de que esteja sendo dado um outro importante passo no caminho de novos Estados - que os povos estejam se armando. Mas disso temos poucas evidências.

De resto, as escolas e universidades ainda não estão nas mãos dos estudantes. O povo ainda não controla todas as armas, nem os soldados têm os oficiais nas suas mãos. A economia ainda é controlada pelo mercado, não pelo povo. E coisa nojenta, continuam existindo fortes poderes executivos, e estes estão se fortalecendo!!!

Ora, nesse exato momento os revolucionários venezuelanos estão precisando defender a reeleição de Hugo Chavéz, em um processo desgastante e que não resulta em avança nenhum, mas somente na manutenção do atual status. Se a República Bolivariana já não tivesse a monárquica figura do presidente, os revolucionários poderiam estar cuidando de coisas mais importantes!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Permita-nos discordar

O blog do PCB de Campinas publicou no dia 28 de Janeiro de 2009 um texto do líder da revolução norte coreana, Kim il Sung, sobre a queda da URSS. As conclusões de Kim il Sung não são diferentes das que podemos encontrar em João Amazonas e em diversos outros pensadores comunistas, inclusive russos, como o “camarada” citado pelo dirigente coreano – teríamos sido derrotados na luta ideológica, e por displicência.

Respondemos a essa interessante análise aqui por que o blog do PCB de Campinas não aceita comentários:

Ora, não é possível negar que depois da morte de Stálin, em 1953, o PCUS deixou a desejar no campo na luta ideológica. Também não é possível negar que Krushov iniciou na URSS a contra-revolução que acabaria restaurando o capitalismo. Mas exatamente por isso somos obrigados a discordar do saudoso João Amazonas, de Kim il Sung e de quantos mais se deixem enganar por essa análise simplista.

O que existe de simplista nessa análise é o mesmo que torna simplista a análise segundo a qual a URSS teria caído por razões econômicas: ambas essas interpretações, uma culturalista e outra economicista deixam de lado a questão do Estado! Aliás, o movimento comunista, durante todo o século XX, enveredou no erro que Lênin já apontava em 1917 n’O Estado e a Revolução, “esquecendo-se” dos ensinamentos marxistas sobre a questão do Estado.

Ora, em 1953 um brasileiro reconhecidamente comprometido com a verdade, Graciliano Ramos, visitou a URSS, deixando-nos a respeito o livro Viagem. Nessa obra uma coisa fica bem clara – o grande apoio popular ao socialismo! Quinze anos depois, em 1968, quando a URSS invadiu a Thecoeslováquia, para justificar a agressão os contra-revolucionários no poder tiveram que fraudar notícias e documentos para convencer seu próprio povo e os soldados de que a ação militar era necessária para salvar o socialismo. De fato, para ficarem no poder os contra-revolucionários tinham que se esconder sob a bandeira vermelha. O sentimento socialista do povo era tamanho que atrapalhava a contra-revolução, obrigando, por exemplo, Brejnev, substituto de Krushov, a se fingir de stalinista.

Portanto ainda não havia um quadro de derrota ideológica do socialismo na URSS, mas a contra-revolução já estava no poder!

Pelo aspecto econômico o quadro é muito semelhante. Somente mais de uma década depois da tomada do poder pelos contra-revolucionários, que podemos datar do Golpe de Moscou, de 1959, a economia soviética começou a crescer mais lentamente. E somente em 1989, um ano antes da queda oficial (que na verdade foi só uma troca de bandeiras e o escancaramento da volta ao capitalismo), os índices de crescimento soviéticos chegaram a zero.

Conclui-se que tanto a explicação culturalista quanto a economicista colocam os efeitos antes da causa! O poder do proletariado soviético já tinha caído, antes que a ideologia liberal tomasse espaço e que a economia sentisse qualquer efeito da contra-revolução.

O que muito deve nos admirar é que por um século os comunistas tenham desprezado a tal ponto a questão do Estado, pois essas análises simplesmente não levam em conta os Soviets. A Constituinte de 1936, que apesar de manter o nome Soviets os reduziu a parlamentos burgueses, é esquecida. Noventa e nove em cada cem comunistas nem sabem que a URSS viveu um processo constituinte em 1936, e os que sabem normalmente desprezam o fato. É como se a Revolução Soviética não precisasse de Soviets!!??

Tal “esquecimento”, mais um dos diversos que atingem o marxismo e todas as teorias revolucionárias, explica-se tanto pela falta de estudos, que resulta em simplificações economicistas do marxismo (as superestruturas não teriam importância nenhuma, pois seriam determinadas pela infraestrutura), quanto pelo oportunismo e o carreirismo, sempre adversos à espinhosa questão do Estado.