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| Queima de livros na Alemanha nazi |
Esse ensaio não é um ataque contra outras pessoas supostamente burras, nem mesmo contra a burrice em si. É uma tentativa de preencher uma lacuna que se faz cada vez mais prejudicial às reflexões sobre as sociedades e os seres humanos que as compõem. Todos os pensadores mais importantes que refletiram sobre a humanidade destacaram a inteligência humana, e a maioria praticamente divinizou a nossa espécie. A consequência é que as instituições que temos, a começar pelos regimes políticos desde suas bases ideológicas até seus detalhes, são pensados para anjos, e não para verdadeiros humanos. Conhecer-nos melhor exige grande atenção aos nossos defeitos. Esse artigo não tem nenhuma pretensão de ser científico. São só reflexões. Ademais, incompletas, pois são um passo inicial. Não pretendo estar certo, mas gerar reflexões e debate.
É interessante começar destacando que nós humanos temos ao menos duas formas de burrice a mais que os demais animais. O que consideramos burrice nos outros animais são limitações. Por exemplo, muitos animais contam, têm noção de quantidades, mas nenhum além dos humanos conta de trás para frente. Outro exemplo mais caseiro, me lembro de um gato da casa de amigos meus que não enxergava o vidro, que era transparente e muito limpo, pulava e batia no vidro, e não aprendia. São limitações físicas, que têm origem na história biológica. A inteligência de cada animal se desenvolveu de acordo com suas necessidades, seu modo de vida, e é específica para tal. Nós humanos também temos as nossas limitações, e é importante conhecê-las. Trataremos de alguns casos adiante. Mas temos outras duas burrices que os demais animais não têm.
Nossa forma de viver mudou muito rápido nos últimos
milênios, e a história biológica não acompanhou essas mudanças ainda. Nosso
corpo é forjado pela vida de caçadores coletores, para não contar heranças mais
antigas. Portanto, muitos comportamentos gerados pelo que chamamos de instinto
(conceito que detesto), que eram úteis para a vida no mato, tornaram-se
completamente ultrapassados e prejudiciais. Eram comportamentos animais
típicos, e agora são burrice, são prejudiciais a quem os pratica e aos outros. Alguns
têm sido condenados a milênios, como pecados ou imoralidades, a exemplo da
gula.
A mais humana das burrices, contudo, é a cultural. Não
é que nenhum outro animal tenha nenhum traço cultural, mas nenhum outro é um
animal cultural como o humano. A linguagem dos pássaros, por exemplo, é
transmitida, ensinada, de uma geração para outra. Assim também acontece com a
linguagem de sinais e gestos dos grandes primatas e com diversas outras
linguagens animais. Eles não nascem sabendo. Portanto, o canto dos pássaros, os
gestos dos macacos, os uivos dos lobos e diversos outros comportamentos de
diversos animais são cultura. Precisam ser cultivados, geração após geração, ou
desaparecem. Contudo, os pássaros não são animais culturais no sentido humano,
porque eles vivem só no mundo real, e não em um mundo cultural como os humanos.
Experiências já mostraram que os pássaros, a semelhança dos humanos, têm um
mapa mental, e podem comunicar localizações uns com os outros. Mas na verdade
essa capacidade de geolocalização dos pássaros é muito mais exata que a que o
cérebro humano pode fazer. Para começo de conversa, os humanos não precisam só
de um mapa mental, que representa o mundo físico, mas de vários, representando
também realidades exclusivamente humanas, como hierarquias, leis, realidades
sócio-econômicas, conhecimentos científicos, produções culturais diversas. Um
pássaro vive no mundo real, e seu mapa mental é quase uma fotografia desse
mundo. Para um pássaro existe uma cidade como um amontoado de tocas humanas,
mas não como organização política. Estados, países, fronteiras, não existem
para pássaros. Também os mapas mentais de outros primatas parecem ser mais
exatos que os humanos, como se nota por jogos de memória, em que os chimpanzés
vencem os humanos com facilidade. Os humanos vivem em seus mapas mentais, e
eles não podem ser exatos como os dos pássaros porque não temos essa capacidade,
em parte dada a enormidade e complexidade de nossa realidade. Temos portanto
“burrices inventadas”, que são produção cultural humana, de que nenhum outro
animal sofre. Nós inventamos coisas, regras, comportamentos, medos, esperanças,
interpretações da realidade, que nos prejudicam, lado a lado com as que nos
beneficiam.
Essas três burrices - a limitação natural, os
comportamentos animais anacrônicos e as burrices inventadas, ou culturais - atuam
juntas, mas podemos pensar sobre uma por uma.
Limitações intelectuais humanas
Comecemos pelas limitações. Nota-se que não são
idênticas para todos os assuntos. Ou seja, somos mais burros ou inteligentes
para algumas coisas que para outras. Sim, cada humano é diferente dos outros
nisso, mas em geral, enquanto humanidade, somos melhores em algumas coisas e
muito ruins em outras. Nosso sucesso em questões técnicas é notório. Somos
bons, enquanto humanidade, em exatas. Sim, a maioria das pessoas acha
matemática difícil (pois foram educadas de forma que não desenvolveram boa
capacidade de abstração), mas é nessa ampla área que temos nossos maiores
sucessos. Aí estão nossos computadores, celulares, satélites, veículos, robôs e
equipamentos em geral, nossos conhecimentos astronômicos e microfísicos, nossas
conquistas químicas e técnicas que revolucionaram outras áreas como a medicina.
Somos péssimos em questões pessoais e assuntos
humanos. Quando uma máquina está estragada, logo a consertamos ou descobrimos
que não tem conserto e descartamos. Quanto aos nossos mecanismos políticos não
temos a mesma competência. Negamos os defeitos, adiamos as soluções, não
concordamos no diagnóstico, e a maioria das pessoas na verdade tem medo de
entrar no assunto exatamente porque não entende nada dele. Aqui entra em cena a
burrice/inteligência exclusivamente humana, a cultural. Nossa compreensão dos
regimes políticos é um esboço mental, sempre muito impreciso, e no caso da
maioria das pessoas, completamente errado. Ademais, a interpretação desse
esboço varia totalmente. Entram aqui fatores que vão além desse artigo, como
classes sociais, partidos políticos, em suma, ideologias. A interpretação dos
regimes políticos e eles mesmos, desde sua formulação, passando pelas críticas
e defesas aos mesmos, têm sido ideológicos durantes toda a história humana.
Nesse artigo o que devemos destacar nesse caso é que as ideologias muitas vezes
funcionam como um bloqueio, uma distorção, para a compreensão dos regimes
políticos, pois na verdade essa tem sido a função histórica das mesmas.
Também somos ruins para compreender a dinâmica dos
diversos grupos em que vivemos. As relações de poder dentro deles são mal
compreendidas, mutáveis, conflituosas, e na maioria dos casos nós nem sabemos o
que está acontecendo.
Merece especial destaque como somos ruins para
escolher pessoas para qualquer função. Desde os casos pessoais, como parceiros
sexuais, passando por assuntos empresariais, como sócios e empregados, até obviamente
os casos políticos, catastróficos. Notem bem – existem empresas especializadas
em selecionar empregados, que contam com psicólogos, com pessoas experientes,
com informações que nem os candidatos têm, e muitas vezes essas seleções
fracassam. Mães muitas vezes conhecem mal e se surpreendem com os próprios
filhos. No caso de parceiros sexuais e sócios, os ditados populares e páginas
de jornalismo policial nos bastam como exemplos.
Por que? Observemos um caso mais simples, que é o
conhecido caso da visão. Todos sabem que humanos só enxergam ondas
eletromagnéticas (tudo que é visível, toda a luz que vemos) de uma pequena
faixa de frequência. Toda a luz que vibra abaixo do vermelho, o infravermelho,
nossos olhos não captam. Toda luz que vibra mais que o violeta, o ultravioleta,
nossos olhos também não captam. Isso sempre é apresentado como uma limitação
fortuita. Mas nada em nossa biologia é sem motivos. Se enxergássemos abaixo do
vermelho, por exemplo, não teríamos escuridão na hora de dormir. Veríamos nossos
próprios membros no escuro, e como nossos ancestrais dormiam amontoados, não
teriam escuridão nenhuma. Talvez tenham nascido pessoas com essa capacidade ao
longo dos milhões de anos que nos precedem, mas isso não lhes deu vantagens
superiores a essa desvantagem ao ponto de terem prosperado. Pelo contrário, não
conseguiram transmitir esses genes. Se enxergássemos acima do violeta, isso
seria perturbador e também confundiria nosso sentido de distância, tão
necessário aos macacos. Porque algumas dessas frequências muito altas
ultrapassam coisas sólidas, em alguns casos até rocha. Ademais, qual seria a
vantagem? Quase tudo o que existe na terra para vermos, principalmente o que
precisamos ver, está na faixa limitada que enxergamos.
Por que então somos meio cegos para pessoas e
relações humanas? Ao longo dos milênios certamente nasceram pessoas mais
capazes de lidarem com esses assuntos. Na verdade, entre os demais primatas e
humanos existem diferenças nesse assunto. Humanos vivem em vários grupos ao
mesmo tempo, e em grupos muito maiores, com dinâmicas variadas, ainda se
relacionam, de forma complexa, uns grupos com os outros, inclusive a longas
distâncias. E nós humanos, embora muito lentamente, quase por tentativa e erro,
transformamos nossas estruturas políticas ao longo dos milênios. Mas é nítido
que em algum momento nossas capacidades para ver as relações humanas e as
pessoas parou de crescer. Em algum momento as pessoas que foram além de certo
limite passaram a ter problemas, e ao invés de se tornarem líderes e terem
vários filhos, muitas não conseguiram transmitir seus genes. Só posso supor que
pessoas com essas capacidades passaram a prejudicar o grupo, geraram conflitos,
e ou foram expulsas ou dividiram o grupo, o que na era da pedra era sinônimo de
morte. Nossa cegueira para os defeitos alheios e para as injustiças que podem
acontecer em nossos agrupamentos pode ser necessária para manter a vida
coletiva da qual dependemos. Talvez, no ambiente atual, pessoas que nascem
menos cegas para esses assuntos estejam prosperando, mas entre 8 bilhões de
seres, nenhuma característica se espalha rapidamente.
O reconhecimento dessa limitação leva a diversas
reflexões sobre nossos regimes políticos. Se somos tão ruins para escolher
pessoas, é claro que devíamos limitar ao máximo o poder dos eleitos. Os
mecanismos de controle sobre os políticos precisam existir, precisam ser vários
e fortes. A revogabilidade dos mandatos é uma necessidade óbvia sem a qual não
se pode falar de democracia. Essa é, diga-se de passagem, a forma como lidamos
com essa deficiência na vida pessoal e empresarial – se escolhemos mal uma pessoa
para um relacionamento, nós terminamos. Se escolhemos mal um sócio, rompemos a
sociedade. Se escolhemos mal um empregado, o despedimos. Ter o poder de
despedir os políticos é uma necessidade para o povo. Também fica claro que as
decisões parlamentares deviam ser submetidas a referendos.
Os grandes colégios eleitorais são menos
democráticos em vários sentidos, mas o que nos interessa nesse caso específico
da escolha humana ser falha é que eles empoderam demais os eleitos. Os
narcisistas que se elegem presidentes podem arrogar que têm nas costas tantos
milhões de votos, e isso é um poder que nenhum ser humano deveria ter. É melhor
que o eleitorado seja dividido em vários pequenos colégios eleitorais, de forma
que os eleitos não concentrem tanto poder. É mais fácil derrubar um
primeiro-ministro que um presidente, e isso torna o presidencialismo menos
democrático. Formas de democracia indireta são mais democráticas que formas
diretas. É uma questão de designer.
Ao falar de grandes colégios eleitorais é impossível
não registrar que encarecem as campanhas, aumentando o poder do dinheiro sobre
todo o processo. É nítido que as pessoas são facilmente manipuladas pelos meios
de comunicação, todos movidos a dinheiro. Grandes colégios eleitorais também
são ruins porque nesse caso os eleitores não conhecem os candidatos
pessoalmente. Se conhecendo pessoalmente já são enganados quase sempre,
conhecendo somente personagens por meio de marqueteiros os eleitores não têm
chance nenhuma.
Também se conclui que não existe votar certo. O voto
não deve ser deificado, nem se deve estimular pessoas desinformadas a votar. A
maioria das pessoas vai ser sempre manipulada pelos candidatos. Somos
incompetentes para conhecer bem aos parentes, para escolher parceiras e
empregados – como imaginar que podemos ser bons em escolher entre raposas
velhas auxiliadas por marqueteiros? Portanto, não devemos culpar o povo por
“votar errado”. Errado é obrigar as pessoas a passarem por esse
constrangimento, e depois jogar sobre elas, na maioria semianalfabetas sem
poder nenhum, a culpa pelos eleitos. O voto não faz o poder ser do povo. O povo
elege, e o eleito tem poderes, mas a conclusão de que portanto o poder é do
povo não passa de um sofisma. O poder é de quem foi eleito, e não de quem o
elegeu. O povo só teria poder sobre o eleito se pudesse depô-lo a qualquer
momento, e olhe lá.
Macaquices ultrapassadas
Exatamente porque nos diferenciamos rapidamente
(poucos milhões de anos) de nossos parentes peludos, muito do que somos não nos
serve mais. Nossa vida atual não tem mais quase nada em comum com a vida que
tinham nossos ancestrais, que foi a que moldou o físico que temos hoje. Nenhum
outro animal desenvolveu um modo de vida tão diferente do modo de vida no qual
a genética de sua inteligência foi moldada. Vou repetir – nossa inteligência,
ao menos a parte genética, foi moldada em um ambiente completamente diferente
do que temos hoje. Portanto só nós temos esses problemas. Perdemos os pelos,
mas não viramos anjos.
Comecemos com um exemplo simples de algo que era
necessário e se tornou autodestruição – a gula. Praticamente todo animal, com
destaque para os mamíferos, é guloso. No reino animal reina de verdade a
necessidade, a fome. Os animais comem tudo o que podem, porque ainda pode ser
insuficiente. A gula não fazia nenhum mal para nossos tataravós que viviam em
árvores. Pelo contrário, era saudável. Há alguns milhares de anos, talvez mais,
a gula foi condenada. As religiões a reduziram a pecado. A gula já estava
ultrapassada como necessidade, tinha se tornado moralmente ofensiva e era vista
como antidistribuitiva. Atualmente, é pior. Tornou-se doentia. Existe tanta
comida, tão fácil, que a gula gera problemas de saúde e certamente tem matado
muita gente. De indispensável a gula tornou-se imoral, e agora, mortal.
Outro exemplo, os ciúmes. Na natureza os ciúmes
servem para um animal garantir que seus genes é que serão reproduzidos, e não o
de terceiros. Na vida humana atual essa função é desnecessária, os ciúmes geram
sofrimento inútil e crimes. Muitas vezes gera o efeito contrário, e afasta o/a
parceiro/a. À macaquice acrescentou-se a burrice cultural, o culto à monogamia,
que na verdade é um culto à possessividade.
Muita gente não gosta da comparação entre humanos e
macacos. Mas mesmo para ser contra tal comparação é conveniente estudar os
macacos. Quem o faz logo nota muitas semelhanças, e é capaz de conhecer as
verdadeiras diferenças. Trata-se de uma boa forma de reconhecer que vários de
nossos comportamentos, sobretudo alguns que hoje se tornaram defeitos, são de
macacos, e assim passar a se envergonhar e tentar conter as macaquices. Na
verdade, a única coisa que nos afasta da macaquice é a cultura. Estudar é se
humanizar, mesmo nos sentidos ruins disso.
Um exemplo importante para entender nossas
diferenças em relação aos outros macacos. Nossos parentes peludos são muito
mais intolerantes do que nós. Eles não aceitam diferenças. Como sua comunicação
é por gestos e toques, sua aprendizagem é quase toda pelo exemplo. Se um
miquinho não aprende a se comportar exatamente como todos, apanha. Se continuar
não se adaptando, apanha até morrer. Afinal, se um membro do grupo se comporta
de forma irregular, atrai predadores, coloca em risco o grupo todo. Entre
humanos jovens, ou seja, ainda ignorantes, pouco socializados, existe
comportamento semelhante. São gregários, e adotam padrões, modas. Excluem ou
reprimem os diferentes. A idade, quando é acompanhada de amadurecimento,
distancia as pessoas desse comportamento símio.
Os humanos são também obrigados a escolher entre
comportamentos símios ou usar a inteligência humana. Como já foi dito, a
relação humana com os agrupamentos diferenciou-se daquela dos demais primatas.
Os primatas todos são coletivos, precisam de seus agrupamentos, sem os quais
morrem. Praticamente só vivem um grupo, o bando, no muito com subdivisões. Nós
humanos somos também dependentes da sociedade, sem a qual morremos, mas
tornamos isso muito mais complexo, com cada indivíduo participando, além da sociedade
como um todo, de diversos agrupamentos, que podem ser hostis, amigáveis,
indiferentes etc. uns com os outros. Cada indivíduo humano tem opções – não
pode viver fora da sociedade, mas pode escolher como se relacionar na
complexidade dos agrupamentos humanos. Os demais primatas não têm, e são tão
dependentes do grupo, que imitam cada passo dos líderes, e se comportam
exatamente como os demais membros do agrupamento. Isso é uma forma de
aprendizagem e uma receita de sobrevivência. A maioria dos humanos continua se
comportando da mesma maneira – seguindo as modas, os padrões, tentando se
adaptar. O problema é que a vida humana tornou-se muito mais complexa e
mutável, e em grande parte das vezes seguir a maioria tornou-se prejudicial, um
erro, uma burrice. Uma minoria se atreve a não seguir o bando. É uma escolha,
um risco. Para seguir o bando, a inteligência não é muito necessária. Mas é
necessário inteligência, e coragem, para detectar quando o bando está errado.
Em muitos casos a burrice é uma escolha (às vezes inteligente) - falta de
coragem (ou de imprudência) para enfrentar o bando.
Outro exemplo. Chimpanzés também têm líderes, e os
escolhem, embora de forma violenta. O bando todo se envolve. Claro, nada muda,
não há nenhum projeto, não há nenhuma decisão a ser tomada. Só o que muda é que
o chefe, o alfa, se beneficia, sexualmente sobretudo. Então porque o bando todo
se envolve? Qual a motivação dos chimpanzés que não estão disputando o comando?
É simpatia e antipatia. Eles apóiam o candidato que já era amigo, e lutam para
aqueles de que não gostam não se tornarem o alfa. Não é difícil notar que
muitas pessoas, exatamente as despolitizadas e incultas, votam assim, por
simpatia e antipatia.
Observando outro aspecto desse mesmo exemplo, grupos
de jovens ou de humanos incultos também têm alfas. Brigam para ser o alfa tanto
como outros primatas. Muitas das guerras entre gangues, e até entre quadrilhas
mais organizadas, assim como entre chefes políticos, para as quais jornalistas
e policiais buscam motivações materiais mais convincentes, no fundo são brigas
pela posição de alfa. Entre jovens do sexo masculino as disputas pela posição
de alfa podem se tornar tão violentas quanto entre chimpanzés. Humanos mais
velhos, quando educados, distanciam-se desse comportamento a ponto de
assisti-lo com a sensação de estarem visitando um zoológico.
Existe uma diferença entre nós e nossos parentes
peludos que não pode ser esquecida. Já ensinaram centenas de símbolos para
diferentes primatas, com os quais eles conseguem se comunicar completamente
conosco, elaborando frases simples. Mas então percebeu-se que eles não são
dados a fazer perguntas. Não quer dizer que não sejam curiosos. São curiosos
para uma série de coisas de outras maneiras, ou nem teriam aprendido os
símbolos. Basta dizer que ainda não inventaram uma jaula da qual um orangotango
não consiga fugir. Mas perguntas, para nós, são raras. Não estão preocupados em
entender nosso mundo. Só com assuntos práticos. Em comparação com eles, somos
grandes perguntadores.
Não sou eu o primeiro a relacionar o conservadorismo
em geral ao chamado instinto de autopreservação. Para nossos parentes peludos é
realmente assim que funciona. Eles têm modos de viver aperfeiçoados por milhões
de anos pela história biológica, que dão certo no ambiente em que vivem. Quando
um jovem símio não aprende a fazer exatamente o mesmo, é punido, como vimos, e
pode ser até morto de tanto ser punido. Para humanos, obviamente, esse
comportamento seria uma burrice, que teria impedido nosso desenvolvimento e nos
mantido em cima das árvores.
A relação entre conservadorismo e burrice pode
parecer lógica. Uma definição de burrice da qual não se pode escapar é que se
trata de dificuldade de aprender. Se a dificuldade de aprender estiver ausente,
como falar de burrice? Coloquemo-nos no lugar de uma pessoa que tem dificuldade
para aprender. Como ela pode desejar que as coisas mudem constantemente? Ela
teria que aprender de novo, e de novo, o que seria um sacrifício. Mas,
excluindo as doenças, a própria capacidade de aprender é desenvolvida ou não culturalmente.
As crianças pequenas, em geral, aprendem muito rápido. As dificuldades de
aprendizado se desenvolvem com o tempo, culturalmente.
Existe uma pesquisa, feita nos EUA, que foi polêmica
porque concluiu que as pessoas conservadoras tendiam a ter a parte do cérebro
responsável pela cultura menor que as pessoas lá consideradas de esquerda. Os
conservadores teriam mais desenvolvida a parte reptiliana do cérebro,
responsável pelas funções vitais, físicas e autopreservação. Típica pesquisa de
obviedades, como se pesquisassem se os peixes nadam melhor que os coelhos. Ou
mais de acordo com o assunto, se as pessoas que fazem exercícios ficam fortes. As partes do cérebro e outros pontos do
sistema nervoso, embora não sejam músculos, assim como estes, se desenvolvem se
forem utilizados e se atrofiam se não o forem.
Em resumo, o comportamento símio é conservador por
auto-preservação. Humanos não seriam humanos se fossem assim. Humanos incultos
e com dificuldades para aprender tentem por medo (símio) ou por necessidade ao
conservadorismo. Mas ser inculto e ou ter dificuldades para aprender são frutos
da educação que se recebe (ou não se recebe). A primeira infância deve ter
grande influência nesse processo, pois grande parte do cérebro humano se
desenvolve após o nascimento, e não antes como nas demais espécies.
Burrices inventadas
Nenhum outro animal inventa e propaga burrices. Como
já foi dito acima, somos animais culturais como nenhum outro. Além do mundo
natural, vivemos em um mundo cultural. Não é um mundo falso, existe tanto em
nossas vidas quanto o mundo natural, e nele temos grande parte dos nossos
benefícios e sofrimentos. Não podemos viver sem nosso mundo cultural. Do ponto
de vista de cada indivíduo, se um indivíduo, como um passarinho, não reconhecer
dinheiro, as leis humanas, a hierarquia social, as fronteiras nacionais ou
sociais etc. se dará muito mal, não poderá viver como um humano comum. Do ponto
de vista social, nossa forma de organização há muito deixou de ser semelhante à
dos demais primatas e tornou-se complexa ao ponto de não poder existir sem
forjar toda uma realidade cultural. Também não se trata de um mundo só das
ideias. Cadeias, por exemplo, não existem na natureza, são criação humana,
cultural portanto, e bem sólidas. Sem cultura, por exemplo, para os pássaros,
são só ninhos feitos por humanos.
O mundo cultural não é falso, nem abstrato, mas é
criação humana, e cada humano só o conhece por abstrações. É importante
refletir que cada humano na verdade tem seu “próprio” esboço do mundo, tanto em
seus aspectos naturais quanto culturais. Nossa realidade é tão complexa, que a
grande maioria das pessoas vive com um esboço muito aquém da realidade, muito
distorcido, às vezes oposto à realidade. A interpretação de mundo de uma pessoa
não é a realidade dessa pessoa. A realidade é a realidade, infinita. A
interpretação de mundo das pessoas faz parte (infinitesimal) da realidade
total, mas só a torna mais complexa, ou seja, mais distante das interpretações.
Esse esboço, esse mapa, essa interpretação, esse
esquema, tem que ser aprendido. Grande parte dele é aprendido já esquematizado,
já desenhado por outras pessoas. Por isso as aspas acima usadas em “próprio” –
a interpretação de mundo de cada pessoa é única, mas não é criação própria. Ao
longo da história, diferentes interpretações sobre o mundo têm convencido as
pessoas, mas sempre poucas em cada época em comparação com a multidão de seres
humanos. Algumas dessas poucas interpretações tornaram-se bases teóricas ou
componentes do que chamamos de ideologias.
O mundo cultural tem tal importância para os
humanos, que nenhum outro animal pode ser tão completamente enganado. Não é
possível convencer os outros animais de que vivem em um mundo completamente
diferente do mundo real. O humano pode ser convencido dos maiores absurdos, dos
quais os noticiários e a história da humanidade estão cheios. Nunca é possível
convencer todos, e entre os intelectuais alguns desmentem as crenças gerais,
mas nações quase inteiras já acreditaram em mentiras completamente absurdas que
as levaram a guerras ou catástrofes ainda maiores. Não falemos de coisas
atuais, polêmicas. Fiquemos com o exemplo dos atenienses quando decidiram fazer
guerra na Sicília. Os conhecedores avisaram, explicaram, que daria errado, que
Siracusa era forte e a Sicília grande. Mas a massa acreditou nas mentiras e foi
morrer e ser escravizada na Sicília.
Os mapas mentais humanos, como todos os mapas
humanos, são compostos por símbolos. Temos aqui outra exclusividade humana.
Outros animais já se mostraram capazes de reconhecer símbolos. Contudo, nenhum
outro animal se entrega aos símbolos como os humanos. Em nossa história é como
se os símbolos se desvinculassem de suas origens, pulassem de nossas mentes, e
se transformassem em protagonistas históricos. Nós nos matamos por símbolos.
Não só grupos humanos se enfrentam porque discordam dos símbolos uns dos
outros, mas também se enfrentam disputando quem tem o direito a um mesmo
símbolo. Quando se desvinculam de seu conteúdo original, os símbolos continuam
arrastando seguidores, às vezes gerando resultados opostos aos que estes
seguidores acreditam que iriam gerar. É nítido que as pessoas têm dificuldades
de diferenciarem os símbolos da realidade, mesmo porque eles realmente se
misturam à realidade, embora não a substituam.
Temos o privilégio de conhecer um pouco a história
dos símbolos, coisa que não se pode dizer de vários assuntos aqui abordados.
Como outros primatas reconhecem símbolos, é certo que hominídeos anteriores aos
Sapiens os reconheciam. Há evidências da época dos Erectus de reconhecimento
estético. Contudo, há dois momentos que merecem destaque. Primeiro, cerca de 50
mil anos atrás, a explosão criativa do paleolítico, quando se multiplicam
pinturas e esculturas. Essas representações mais antigas, porém, embora sejam
símbolos de uma forma ou de outra, tendiam fortemente ao realismo. Passadas
mais três dezenas de milhares de anos, em sítios normalmente ligados ao período
mesolítico, é que as pinturas se tornam esquemáticas, simbólicas, afastando-se
do realismo. Podemos dizer que é a partir de então que vai se iniciar passo a
passo a era dos símbolos, entre os quais estamos hoje completamente
mergulhados.
Chegamos até à completa inversão – pessoas são
transformadas em símbolos. Às vezes já vivas. Mas quando mortas é pior, porque
se tornam símbolos mais maleáveis, que podem se prestar às mais diversas e
opostas causas. É o que acontece com os mais destacados líderes religiosos,
filosóficos e políticos. Elevados a símbolos, servem a gregos e troianos, e
servem a causas absolutamente opostas às que pregavam.
Burrismo
Pessoas inteligentes podem ser burristas. Trata-se
do culto à burrice, da difusão da burrice, da pregação de burrices, de posições
contra os intelectuais e contra as ciências, de obscurantismo militante. Vez
que outra esse fenômeno se destaca na história humana. Movimentos religiosos
são useiros e vezeiros nessas práticas. Mas nos últimos séculos destacaram-se
burrismos laicos, com finalidades políticas e sociais conservadoras. As
religiões muitas vezes colaboram com essas forças obscurantistas laicas.
Paradoxalmente, o objetivo não poderia ser mais claro – manter as pessoas na
ignorância. Tem sido possível constituir coligações burristas, unindo forças
que são obscurantistas por motivos diferentes, desde o pastor que só está com
medo de perder fiéis, até o líder político nacional que ganha votos repetindo
modismos idiotas.
Burristas, é o que os fascismos todos foram. O que
unificou todos os fascistas, tanto cada um deles internamente em cada país,
quanto uns com os outros internacionalmente, foi o anticomunismo. A única outra
coisa que têm em comum, e que é essencial em cada um deles, é o obscurantismo
militante. Eles não têm unidade em suas mentiras, mas têm contra as verdades,
contra a ciência, contra os intelectuais. Os intelectuais foram os primeiros
alvos dos fascistas, dos nazistas, dos franquistas, dos salazaristas, dos
bandeiristas, das ditaduras de Pinochet, do Brasil, da Argentina, do Uruguai e
de quantos países na terra sofreram com regimes repressivos de direita. Em seus
escritos, alguns líderes de direita, como Hitler, confessam esse ódio. Já os
comunistas não só defendem o contrário, mas o são. Lênin foi o grande defensor
do papel da intelectualidade na revolução socialista, e crítico feroz dos
anti-intelectuais. Mas se pensarmos bem, todo o movimento comunista é essa
ligação entre intelectuais e massas trabalhadoras, tanto que os grandes líderes
comunistas foram todos grandes escritores e jornalistas. Em outras palavras, o
anticomunismo precisa ser burrista.
Também podemos chamar de burrista a atuação dos
meios de comunicação de massas do auto intitulado “mundo ocidental”. Fazem
sistemática pregação subliminar (e às vezes descarada) contra os intelectuais,
contra as escolas e contra a ciência. Filmes e animações ambientados em escolas
são comuns. Na maior parte deles a escola é um ambiente chato, os professores
são imbecis, os alunos inteligentes são ridicularizados e os heróis são alunos
idiotas que atrapalham as aulas. Os intelectuais, nerds, são sempre bobos, ou
os vilões. A figura do cientista louco é repetida. O intelectual é perigoso, e
no final da estorinha, o herói, quase sempre um burrão, semianalfabeto, que resolve
tudo com murros e um revólver, acaba sendo mais esperto que o doutor. Como
prêmio, ele se torna dono de uma mulher.
A ciência, não só é retratada como perigosa, mas
também como o que não é ciência. Não só em ficções, mas também em documentários.
Trabalhos técnicos, onde não está acontecendo nenhuma experiência científica,
são chamados de ciência. Ciência seriam trabalhos que se fazem em laboratórios,
em máquinas, em computadores. A tecnologia seria ciência. Já a ciência que
esteve na origem da tecnologia, das máquinas, e na qual se baseiam os testes de
laboratório não é sequer apresentada ao público. Por exemplo, um arqueólogo, no
caso o verdadeiro cientista, é mostrado em um documentário. Uma das peças
escavadas vai para um laboratório para uma contagem de carbono 14. O narrador
do documentário então afirma que a ciência vai contribuir com a arqueologia. Ou
seja, a arqueologia não seria ciência. Um arqueólogo não seria um cientista,
mas outra coisa, no limbo dos nerds. O teste de laboratório, um trabalho
técnico, é que seria. O objetivo é que as pessoas não saibam o que é ciência, e
assim não saibam que a realidade social, humana, pode ser compreendida
cientificamente. Só a matéria bruta poderia ser estudada cientificamente.
Ademais, em canais cujos nomes incluem as palavras
História e Ciência, são oferecidos em grande quantidade conteúdos
anticientíficos. É uma chuva de religião, exoterismo, ufologia, cruzados,
nazistas, videntes, e todo tipo de bobagem. Tem até Pé Grande e Homem Mariposa.
As interpretações históricas são pobres, distorcidas, irracionais,
maniqueístas, mentirosas, e têm piorado. Uma das técnicas é substituir a
história por uma estorinha de um só indivíduo. No lugar da história das
revoluções, contam fofocas sobre Cronwel, Robespierre, Stálin. No lugar da
Segunda Guerra, repetidas biografias de Hitler, e calúnias contra a União
Soviética. No lugar da história econômica dos EUA na segunda metade do XIX, apologias
de criminosos que monopolizaram setores da economia na base de assassinatos e
fraudes. No lugar da história da crise da República em Roma, contam centenas de
vezes sobre os romances de Cleópatra. No lugar da independência do Brasil, as
putarias de D. Pedro I.
O próprio mercado tem uma influencia burrista sobre
a produção cultural. Os artistas logo notam que coisas infantis, simples,
vendem mais - As músicas fáceis de decorar; Os filmes que não exigem esforço de
compreensão; As teorias da conspiração e besteiras em geral. Então muitos não
precisam ser convencidos a contribuir para o emburrecimento da população. Já o
fazem por dinheiro.
Além disso, os cineastas já descobriram algumas
cenas que sempre agradam a massa ignorante: Explosões; tiroteios; carros e
outros veículos correndo; lutas marciais, com ou sem armas. Quando nos
perguntamos o que leva uma pessoa a defender a difusão das armas de fogo, temos
que nos lembrar que quase todo filme se reduz a um simplão com uma arma de
fogo. Um sujeito que foi educado só pela TV, analfabeto na prática, tem certeza
de que precisa de uma arma de fogo para ser herói. Quando compra um carro, não
só todos os filmes que assistiu, mas até as propagandas das indústrias
automobilísticas o ensinam que ele deve correr. Mas isso não é o pior. O pior é
que em quase todo filme o objetivo primário ou secundário é a conquista de uma
mulher. Muitas vezes o vilão e o mocinho disputam a posse da mesma mulher. Essa
cultura televisiva multiplica os crimes no trânsito e “passionais”.
Massas infantis
Ao longo da história a maioria da população nunca
chegou a desenvolver plenamente (se é que isso existe) suas faculdades mentais.
As massas têm permanecido, ao menos em situação normais, infantilizadas.
Se voltarmos muito no tempo, à idade da pedra, as
pessoas raramente envelheciam, então essa questão nem se colocava na prática.
As pessoas morriam jovens, e a vida era dura desde cedo, de forma que talvez
também nunca tenham tido tempo de ser imaturas.
Quando minorias nas recém surgidas cidades,
ampliaram a cultura humana, com escrita, matemática, observação dos astros,
enfermagem e medicina, engenharia etc., não existiam condições materiais para
que a maioria das pessoas chegasse nem perto dessas novidades. Quase todas
moravam no campo, e mesmo as que moravam nas cidades teriam que ter recursos e
contatos para poderem desenvolver-se nesses terrenos.
Contudo, aqui é importante uma ressalva. Desde o
mundo antigo, e em número crescente na medida em que cresceu o poder humano
sobre a natureza, existiram pessoas que tinham condições mas nunca chegaram a
desenvolverem suas faculdades mentais. Na verdade, os nomes dos mais
inteligentes são até lembrados ao longo dos tempos, evidenciando o quanto são
raros.
Grande parte disso deve se atribuir à decisão
individual, ou em termos mais acusativos, à preguiça. Já sabemos com certeza
que o cérebro humano se desenvolve com o uso. Assim como as pessoas sabem que
precisam fazer exercícios físicos, mas não fazem, também não exercitam o
cérebro.
E a genética? Acabamos de mencionar que ao longo da
história alguns gênios são lembrados pelos nomes. Em quase nenhum desses casos
se encontra evidências de familiares de destaque, ou são poucos. Há casos
conhecidos de famílias em que a inteligência se destaca. Mas são igualmente
raros, um pouco menos raros na música talvez. Ou seja, devem existir genes que
por diferentes motivos favorecem diferentes partes do cérebro e da
inteligência, mas a observação nos leva a deduzir que só podem ser genes
recessivos, não genes dominantes. Talvez expliquem alguns casos excepcionais,
mas não explicam a infantilização da sociedade. Mas eis uma questão
interessante: Por que os genes da inteligência, se é que existem, só podem
existir escondidos? E por que parece haver uma exceção para os músicos? Isso
faz pensar na antipatia que as massas infantis às vezes demonstram pelos
intelectuais. Movimentos burristas como o nazismo e o fascismo usaram essa
antipatia para jogar o povão contra a intelectualidade. Ao longo da história
quantas vezes os escribas e sacerdotes foram massacrados em conflitos
políticos?
De onde vem essa antipatia das massas contra os
intelectuais? Podemos descartar a inveja por insuficiente. Seria o simples
hábito símio de não aceitar bem as diferenças? Talvez um pouco. Mas existe
outra possibilidade, que tem relação com uma função inseparável da inteligência
humana. Na vida prática a inteligência serve para resolver problemas. Por
exemplo, nossos ancestrais precisavam decidir, ou seja, saber como, arranjar
moradia, acender o fogo, construir armas e outros instrumentos, obter água,
alimentos etc. Enquanto a inteligência era usada “contra” a natureza, não
incomodava tanto. Mas resolver um problema exige, primeiro, detectá-lo,
analisá-lo. Quando os grupos humanos crescem, se tornam complexos, e geram
problemas, as pessoas que percebem e pedem a resolução dos mesmos se tornam
indesejáveis. Os intelectuais aparecem então para os demais como criadores de
problemas, críticos. Como as outras pessoas ainda não tinham percebido o problema,
ele parece ter sido criado por quem o denunciou.
Descartados os genes, o que gera essa diferenciação
inexistente no reino animal? Sim inexistente. Abelhas e formigas são outro caso,
primeiro porque as rainhas recebem alimentação completamente diferente, se
tornam biologicamente diferentes, e segundo, porque as operárias não têm
individualidade nenhuma - não existem conflitos internos entre abelhas e
formigas – o “indivíduo” é a colméia, o formigueiro. Ademais, não são animais
culturais. Os humanos são muito pouco diferentes biologicamente uns dos outros,
mas muito diferentes no quesito inteligência. Todo humano nasce 100% ignorante,
e se deixarem, ele permanece assim.
Primeiro, isso é ser humano. Nós podermos ser
diferentes sem o bando nos linchar até a morte. Segundo, essa diferenciação
cognitiva é criação humana. Um dia não existiram quase nenhuma das coisas que
tornam nosso mundo complexo e exigem um mapa mental complexo. São criações
humanas a escrita, a matemática, o governo, as fronteiras, o dinheiro, as leis,
as cidades, o trânsito, as escolas, as máquinas, os prédios, as estruturas
familiares atuais etc. Portanto ser mental e intelectualmente desenvolvido em
qualquer assunto desses, mesmo que em nível básico só para sobreviver, não é
algo natural, exige esforço do indivíduo e da sociedade que o cerca.
Amadurecer a população dá trabalho, e como se sabe,
existem forças gigantescas trabalhando no sentido contrário. As sociedades
escravocratas se destacaram pela infantilização proposital dos escravizados.
Essa infantilização praticamente sempre se espalha entre as pessoas livres da
mesma sociedade. O capitalismo, com seus próprios recursos, também promove a
infantilização. Assim as pessoas passam seu tempo livro assistindo desenhos
animados e jogando vídeo game.
Assim como a direita precisa ser burrista, para
manter a escravidão capitalista, a esquerda precisa ser “intelectualista”.
Deixar as pessoas na infância mental é deixá-las em estado quase símio, e pior,
escravas que não sabem que o são. Levar as massas ao amadurecimento as conduz
ao inconformismo e a realizarem transformações sociais. Ser contra a ciência,
os intelectuais, e os livros, é ser contra o marxismo, todos os líderes
socialistas e a Revolução.

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