segunda-feira, 17 de março de 2014

Características comuns entre o fascismo e desvios do movimento negro


Não conheço nenhum grupo do movimento negro brasileiro que se possa afirmar que é fascista. Aliás, isso se parece enorme absurdo, enorme irracionalidade, visto que o fascismo sempre se caracterizou pela perseguição contra as pessoas de cor. Porém, o fascismo nunca é racional!

Quando a direita pagou torcidas de futebol para atacarem militantes de esquerda nas manifestações de Junho, e a polícia engrossou os grupos fascistas com o mesmo objetivo, surgiu na opinião pública brasileira um forte receio do crescimento da direita, do renascimento dos galinhas verdes. Contudo, esses grupos que existem no Brasil, criminosos sem dúvidas, são meras imitações, caricaturas, do fascismo. Devem ser reprimidos com dureza, pois com fascismo não se brinca, mas não têm conexão com a realidade nacional. Sim, todo fascismo que vingou tinha fortes conexões com as características mais conservadoras das nações que mergulharam em sangue.

Afinal, qual a origem do fascismo? Em cada país a origem ideológica do fascismo bebe nas fontes enraizadas, conservadoras, que permitam resistir ao socialismo ou falseá-lo. Então, Mussolini, o criador da coisa, por um lado confundia os trabalhadores italianos dizendo que a Itália toda era proletária, não só os trabalhadores italianos o eram, e ao mesmo tempo recorria à memória do Império Romano, e ao mesmo tempo reconciliou o Estado italiano com a Igreja Católica. O povo italiano seria um todo unido e oprimido por séculos por potências estrangeiras. O seguidor mais famoso de Mussolini, Hitler, já teve que usar o anti-semitismo, antigo e enraizado na cultura alemã, e mesmo o culto do líder não foi somente uma imitação de Mussolini mas também a adoção de uma característica forte da cultura alemã, onde mesmo os grupos de colegas de classe tinham líderes. Também os alemães se sentiam oprimidos e perseguidos, e o nazismo utilizou muito esse sentimento.

Ora, os grupos fascistas que aparecem na mídia são imitações sobretudo do nazismo alemão, apegados aos seus símbolos, às suas fardas. Um dos pilares do fascismo era sua aparência, suas demonstrações, e as mentes fracas até hoje caem nessa propaganda. Porém, que eficácia pode ter a defesa da raça pura, branca de olhos claros, no Brasil? E o anti-semitismo, em um país que mal tem judeus? Ora, a perseguição aos judeus cumpriu importantes papéis nos crimes nazistas, além de angariar popularidade. Em primeiro lugar, os judeus eram o bode expiatório, a vítima para colocar no lugar da burguesia, classe social. O proletariado alemão sabia que era explorado, e tendia a compreender a luta de classes, e os judeus serviram para confundir os proletas e virarem os grandes exploradores. Ademais, os judeus eram presas gordas, uma comunidade grande e rica na Alemanha. Nota-se que no Brasil os judeus não podem cumprir o mesmo papel que cumpriram para Hitler. Não é que não tenham vindo muitos judeus para o Brasil. Eles vieram, sobretudo para as Minas Gerais, mas foram aculturados, sobretudo nas Minas Gerais, e deixaram de serem judeus ao ponto de nem se lembraram que seus ancestrais o foram.

O fascismo não pode ser racional, pois é uma soma de absurdos, das coisas mais atrasadas, do racismo às religiões, de forma que prega mesmo contra a razão, ou ao menos que ela tem dono, que é o chefe político. O fascismo se baseia na estética, nos sentimentos, sobretudo no ódio. Como cresce? Só quando os capitalistas desesperados despejam dinheiro em algum movimento fascista escolhido a dedo, lhes enviam seus melhores técnicos e colocam a seu dispor as redes de comunicação de massas. Porém, com todo o dinheiro do mundo ainda é necessária uma receita política de acordo com o que as massas mais ignorantes estão preparadas para aceitarem. Em comum com o fascismo europeu o brasileiro teria sobretudo a aliança com os setores mais reacionários das igrejas, em grande parte do resto teria que ter outra cara.

Se os membros dos grupelhos fascistas fossem só um pouquinho inteligentes notariam que em qualquer país onde o fascismo vingou, baseava-se na maioria étnica. Embora os fascistas admirem países e regiões escravocratas, a verdade é que regimes de escravidão e de apartheid não são movimentos de massas, não são o perigoso fascismo, são (ou eram) regimes fracos que têm com o fascismo enormes semelhanças de pontos de vista, mas não a sua força. Sendo, portanto, membros da minoria branca brasileira, os pseudofascistas daqui deviam temer o fascismo, e não cultuá-lo! Eles podem servir, pelo contrário, como espantalhos que ajudem a estimular um verdadeiro fascismo, dos quais eles seriam as primeiras vítimas.

Eis a estranha verdade. Se existe um campo onde um verdadeiro fascismo brasileiro, certamente nunca com esse nome ou aceitando essa vinculação, poderia ser criado, seria nos setores irracionais do movimento negro! O fascismo precisa esconder a luta de classes, confundi-la, negá-la, e no Brasil só é possível substituir a consciência operária de que é explorada pela burguesia pelo sentimento contra os branquelos ricos. Ah, mas a burguesia brasileira é quase toda branca! Sim, e a burguesia alemã era quase toda judia. Mortos os judeus, a Alemanha continuou capitalista, continuou burguesa, só mudando as pessoas dos burgueses, mas a burguesia enquanto classe permaneceu viva. Para isso serve o fascismo, para salvar o capitalismo custe o que custar, mesmo que custe o sangue e o dinheiro da própria maioria dos burgueses.

Obviamente, a imensa maioria dos grupos do movimento negro são antifascistas e não tendem ao fascismo. Contudo, o fascismo não pode mesmo nascer racionalmente. Mesmo seus protagonistas mais destacados, como Mussolini e Hitler, foram de fato fantoches, acreditavam que estavam fazendo uma coisa e estavam fazendo outra. A ação racional foi a dos financiadores, que encontraram esses movimentos nanicos e os inflaram. Claro que eles pagaram muito mais que dinheiro por essa escolha bizarra. As burguesas, por exemplo, perderam completamente a liberdade, expulsas até das universidades. Acontece que raças humanas não existem, mas classes sociais sim, existem, e têm um extinto de sobrevivência capaz de sacrificar seus componentes.

Se o movimento negro não for informado pela ciência, se não compreender que é a luta de classes o jogo de forças de longe mais significativo das sociedades atuais, ele tende a enxergar o mundo dividido entre brancos e negros, e como a maioria dos trabalhadores brasileiros é composta de negros essa visão de mundo ajuda a blindar a burguesia e a dividir os trabalhadores. Os dados estatísticos e históricos não ajudam a gerar ódio entre brancos e negros, então esse sentimento só pode ser criado por meio de propaganda sentimentalista, mostrando os negros como oprimidos. Embora em medida limitada, a grande imprensa já presta esse desserviço à nação. Se o rascismo que desvaloriza o negro já não é mais possível, então as TVs alimentam o racismo pelo ressentimento, pela criminalização do branco.

Nos últimos anos o racismo, até então decadente, recebeu um reforço dos governos petistas. Incapazes de realizarem qualquer transformação real na sociedade, qualquer melhoria real na educação, qualquer distribuição de renda ou oferta de empregos que realmente signifiquem avanços, incapazes de estatizar, incapazes de fazerem uma reforma política, incapazes sequer de criarem um sistema de comunicações popular, liberando as rádios populares, sindicais, universitárias etc., esses desgovernos se esforçaram por agradarem suas bases com paliativos. Uma maneira de agradar a maioria negra da nação foram as cotas raciais, que agora se estende aos empregos públicos. A massa da população negra continua oprimida, mas foi acalentada com as cotas das quais pouquíssimos vão usufruir, e quase sempre o que já são ricos e privilegiados. Na esquerda poucas vozes se levantaram contra as cotas, mas para a direita foi a chance de ouro de ressuscitar o racismo. Todos os movimentos sociais já se cindiram de cima abaixo simplesmente debatendo as cotas!

Nas estatísticas atuais e na história o que se constata é que a maioria dos brancos são e foram sempre explorados lado a lado com os negros, e que existe e sempre existiram, por outro lado, negros ricos e senhores de escravos. Um exemplo gritante, em Minas Gerais, na cidade de Sabará, no início do século XIX dois terços dos senhores de escravos eram negros. Em outras palavras, a questão já era de classes, de senhores contra escravos, e não étnica. Ademais, dado o grau de mestiçagem é certo que muitos negros são descendentes de senhores mais que de escravos, e muitos brancos, ao contrário, têm mais ancestrais escravos que senhores. Dificilmente algum brasileiro, negro ou branco, não tem nenhum ancestral que foi senhor, e mais dificilmente ainda não tem algum que foi escravo. Porém, alguns argumentos que não respondem, mas tentam desvalorizar esses dados, baseiam-se não na história, nem nas estatísticas, mas na estética... O negros seriam oprimidos pela sua atual aparência, e com essa conclusão corta-se os vínculos do movimento com a história e com a razão. Diga-se de passagem, a aparência é importante para alguns membros desses movimentos ou mesmo como tática deles, seja em espetáculos culturais ou nas roupas, penteados etc. Note-se como essa escolha de militância é semelhante ao fascismo – as informações reais sobre a história da escravidão são propositalmente deixadas de lado, uma vez que relativizam a perspectiva racial, e em substituição do conhecimento como arma do movimento negro o que se destaca? A estética, as roupas, a beleza!

Naturalmente, os movimentos negros representam a população negra como oprimida, assim como os alemães e italianos se achavam, e a reação a essa opressão é a auto-valorização. Nada de mal em si. Ruim era quando os negros tinham vergonha de suas características, assim como era ruim quando italianos e alemães se desvalorizavam. O perigo é o passo além, o passo que foi dado pelos alemães, de se sentirem lixo para se sentirem a raça perfeita. Há vertentes no movimento negro, sobretudo sob influência estadunidense, que cultuam os negros de forma muito semelhante à que os alemães cultuavam os louros de olhos azuis. Racismo é racismo, e na África existe racismo não só dos negros contra os brancos, mas de negros entre si, entre diferentes nacionalidades. Acreditar que essa ou aquela pseudoraça (não existem raças humanas) é superior é racismo, mesmo que se acredite que a superioridade é dos negros e não dos brancos. A ciência evita por completo esse desvio, ensinando, 1, que as diferenças genéticas humanas não chegam a configurar raças, 2, que existe uma variedade genética tão grande na África que não se pode falar, geneticamente, de uma divisão simples entre negros e brancos e, 3, que a miscigenação genética já é tão grande, no mundo todo, que é comum testes com diferentes pessoas as vezes mostrarem diferenças maiores entre brancos e brancos ou entre negros e negros, que entre brancos e negros, e sobretudo no novo mundo é comum encontrar brancos com mais parentesco com os africanos do que com europeus, assim como negros com mais parentesco com europeus que com africanos. O problema, como já afirmei várias vezes, é que o fascismo nega a razão, nega a ciência, não pode conviver nem com uma nem com outra.

O verdadeiro perigo fascista no Brasil, como em todo lugar, seria no momento em que os capitalistas precisassem de soluções desesperadas para salvarem o capitalismo. O dinheiro então fluiria para diversas organizações partidárias, religiosas e diversos movimentos. Seriam então, lado a lado com grupos de imitadores de Hitler, financiados movimentos negros nominalmente nada fascistas, que ao contrário da pureza racial defendessem a mestiçagem como ideal, e ao contrário de louros de olhos azuis defendessem os negros como raça superior, e ao invés de culpar judeus por tudo, culpassem os brancos ou alguma parte significativa da população branca. Se não conseguissem chegar ao poder, e seria difícil mesmo, certamente conseguiriam fazer grande estrago na unidade e na consciência dos trabalhadores.

Atualmente, quase todos os militantes de movimentos negros se identificam com a esquerda e têm horror ao fascismo. Está nas mãos desses militantes manter o movimento informado, afastar do movimento as irracionalidades, o racismo, e sobretudo, não permitir que o movimento esqueça ou relativize a luta de classes. O divisor de águas entre um movimento negro de resultados bons e um movimento que possa ser usado pelos capitalistas esta nessa compreensão. Quem compreende que a grande divisão da sociedade é em classes sociais, compreende a necessidade de união entre brancos e negros contra o capitalismo, portanto lutará contra o racismo de um lado e de outro. Naturalmente, todo conhecimento científico é antifascista, de forma que a saúde do movimento negro depende do quanto for informado por dados reais, pesquisas históricas, biologia, genética, antropologia, psicologia etc., de forma a não deixar espaço para o sentimento de ódio racial. O ódio racial é a isca com a qual os negros podem ser fisgados para serem usados em defesa do capitalismo.

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